19
Mar

A Descoberta de Lombok 

Falei que ficaríamos apenas alguns dias, mas na verdade nos apaixonamos por essa “quase esquecida ilha” e, se não fosse um acontecimento na minha vida pessoal (Grazi), acho que teríamos ficado por lá até o fim da viagem….estava demais!

Primeiramente quero contar como foi pegar o ferry boat e aproveito para dar umas dicas a quem for fazer isso. Acabamos saindo so na manhã do dia 10/03, às 11h de casa, aqui em Sanur, Bali. Dirigimos nossa motinho até o lugar que se pega o ferry que se chama Padangbai. A estrada parece boa, uma pista larga, bem asfaltada, mas… cuidado a quem se aventurar: ela trocava de direção a todo momento sem nenhuma sinalização. Quando achávamos que era pista dupla se tornava mão única e assim ia, mudando muitas vezes… uma loucura, mas chegamos bem em uma hora de trajeto. O ferry custou 100.000 rupias, algo tipo dez dólares. Tivemos que “dar” U$ 5,00 ao seu guarda por não termos a carteira internacional de motorista (falei que nunca pagaríamos, mas dessa vez não teve como). Ele ainda perguntou: “Tudo bem?” e nós respondemos tipo “sim, tudo bem, pode pegar a grana…” aiaia… Só aqui mesmo uma coisa dessas!

Algumas fotos de lá:

A viagem demorou muito (mais de cinco horas e são apenas 35km) e fomos bem na parte de cima do barco, pegando muito vento, maresia e ainda tinha o chamado muçulmano - em Lombok e todas demais ilhas da Indonésia a religião é Muçulmana, somente Bali que é Hindu - esse chamado é feito por rádio e acontece várias vezes ao dia. Eu particularmente acho lindo, mas no barco estava tão alto que ficou chato. A viagem toda demorou quase 7h e chegando em Lombok resolvemos ir para Kuta Lombok, desistindo de Desert Point, pois as ondas lá não chegaram como previsto e também porque o casal de amigos cariocas ficaram em Bali.

Sozinhos, sem mapa, sem saber de nada e na escuridão da noite fomos bem aventureiros perguntando a direção de Kuta Lombok em alguns bares, supermercados que ainda estavam abertos e depois de uma hora e meia chegamos a praia de Kuta. A estrada final era tão escura que achamos que iríamos dar de cara com uma pantera a cada momento ou um elefante… Vai saber!

Chegando lá descobrimos um outro astral! A pequena praia estava em um dia de festa (reunião de pessoas que tem aquela scooter chamada Vespa, aquela antiga motinho italiana toda bonitinha). Tinha um monte de gente pelas ruas, bares abertos, um clima descontraído, um ventinho fresco e logo dois meninos perguntaram de onde estávamos vindo e se queríamos indicação de hotel. Já ficaram nosso amigos.

Ficamos em uma pousada bem na beira da praia super legal com café da manhã (frutas, panqueca de banana super deliciosa e um café com gengibre que viciei - comprei até para levar a Brasil). A diária ficou em torno de dez dólares.

Nós tomando café da manhã na varanda do quarto. Café caprichado e panqueca com cheirinho de baunilha, segredo deles.

Do lado da pousada um restaurante ótimo, comida muito boa e pizza perfeita virou nosso ponto de todas outras refeições e onde comemos muitas vezes com nossos vizinhos de pousada: a Stefani e o Simmon que são da Bélgica. Super queridos, ficaram conosco a maior parte dos dias sempre com programas legais e boa companhia. Agora já sabemos que a melhor cerveja do mundo é na Bélgica (além do melhor chocolate) e já temos convite para ir lá e curtir todas essas maravilhas belgas… Hummmmm. :)

Sobre Lombok vou tentar ser breve, se conseguir. Lugar lindo, praias de sonhos com a areia mais branca que já vi na vida, a água mais azul do mundo, fresca, gostosa mesmo, daquelas que tu mergulha e não tem frio, mas também não fica sentindo que entrou numa água morna. Perfeita. Já na primeira praia que fomos eu delirei com o visual.

Olhem só o que era a praia de Tanjung Aan. Detalhe: sempre estive sozinha nessa areia. No máximo, vi uma pessoa de turista, mas bem distante de mim.

O pessoal daqui não costuma ir a praia. Muitos locais surfam é verdade, mas se deitar na areia de biquíni, isso não existe. Essa praia era de locais e então nem turista tinha. O dono da nossa pousada que nos levou lá no primeiro dia e já apresentou esse “local spot” para o Guga surfar. As ondas estavam ótimas e ele surfou lá muitas vezes, porém, no último dia, ontem, foi “gentilmente convidado a se retirar” por um surfista local (que falou isso com calma e um sorriso no rosto). O cara foi educado e entendemos, afinal eles só tem o domingo de dia livre para surfar e essa praia é para surfistas locais… tudo bem, aproveitamos no mar e na areia mais um pouco e saímos em respeito.

O que tem são vendedores de cangas e  artesanato. Essa aí é a dona Maria (comprei uma canga dela).. rsrsrs!

Fomos também a outras diversas praias nos outros dias.

O paraíso perdido (nós achamos e fomos!!!) da praia de Mawun que fica a uns 10km de Kuta. A praia simplesmente não tinha ninguém, o mar era turquesa, sem ondas… Se explicação. Eu me atirei na areia e quase que não levantei mais…kkkk!

Dali seguimos para a praia de Maui. Uma estrada difícil com belas paisagens. Foi duro conseguir passar com a motinho e na pior parte nem foto consegui tirar, mas segue algum exemplo e o fim recompensador. Praia de altas ondas essa.

No meio da estrada muito arroz secando…

A praia de Kuta onde estávamos é cheia de restaurantes e bares. Achamos um com uma comida super bem apresentada, também pudera, o restaurante se chamava “Professional Food”. Olha aí o espetinho de peixe do Guga que veio espetado num alho poró com cone de arroz e molho de amendoim. Eu tomei café gelado. Visual de fim de tarde ótimo.

Lá pela quarta feira, dia 14/03 ventos fortes começaram a soprar. Tão forte que foi impossível surfar e ficar na beira da praia. Os serviços de barcos pararam de funcionar, os ferry boats também e a luz foi cortada. Ficamos assim por dois dias e meio. Já não tinha mais gelo nos restaurantes e bebida gelada para tomar estava acabando. Algumas comidas como nossa pizza do bar do lado da pousada também. “Ilhados”!

Foi meio quente para dormir sem o ventilador, mas foi interessante porque fizemos um passeio por um vilarejo chamado Sade onde fazem muito artesanato e vivem em casas de palha (são mais de 700 pessoas nesse vilarejo e todas da mesma família, se palguém quiser casar com uma moça de fora da vila tem que dar ao pai dela dois búfalos!).

Em um outro dia tentamos ir até o pé do grande vulcão de Lombok chamado Rinjani, mas como estávamos com os belgas e mais uns cinco outros belgas, amigos dos nossos vizinhos, não chegamos ao destino e tivemos que voltar. Um dos belgas se perdeu e os outros dirigiam tão devagar que o que era para fazermos em duas horas ia levar dois dias…é, definitivamente, dirigir na Bélgica não é como dirigir na Ásia meus amigos! Fotos não tirei, só essa do nosso grupo perdido e o Guga quase morto de tanto dirigir.

Em um dos dias de alto surf fomos a Gerupk. Para chegar lá tivemos que pagar um barco, pois ele largaria os meninos já dentro do mar, lá nas ondas. Eu fiquei com minha amiga no barco tirando fotos. Não consegui tirar muito bem fotos do Guga surfando porque o capitão do barco ficou meio de lado, sei lá o que deu nele… Ele se distanciou das ondas e como ele não falava inglês foi difícil a comunicação. Mas foi emocionante ver ondas tão grandes bem de pertinho.

Fotos da praia de Segar que fomos em um fim de tarde. Cheia de ouriços e peixinhos lindos:

Sete dias depois, felizes demais por termos descoberto essa linda ilha de Lombok, com esse povo tão especial, querido, amigo e receptivo, voltamos a Bali. Dessa vez fomos mais espertos no ferry boat e aí vai a dica: pague mais U$ 2,50 cada pessoa e vá na Primeira Classe. Olha só o luxo, cadeiras boas, DVD e ar condicionado. Voltamos bem confortável, sem se sujar e sem vento na cara. O barco quase virou, mas isso foi culpa do vento lá fora.

Na estrada para Lembar, cidade que se pega o Ferry Boat para voltar a ilha de Bali, passamos por muuuuuitas plantações de arroz, por vilarejos simples e lugares muito pobres, assim como naquele dia que ventou muito e que fomos passear com os belgas.

Pensei que essas pessoas daqui não enxergam e nunca vão enxergar a Indonésia como um lugar de praias lindas e de férias, muito menos de altas ondas, hotéis de luxo, resorts e massagens baratas a cada esquina. Para essas pessoas, essas ilhas não passam de seus humildes vilarejos, seu lugar para plantar e cuidar da família. Os adolescentes aqui não vão para a praia. Mesmo sabendo que estão numa ilha e que dirigindo no máximo duas horas para qualquer direção vão chegar no mar (pelo menos em Lombok que tem uns 80km de extensão) eles não fazem isso. Vivem como no interior, vida simples, dura e de muito trabalho. Vi muitos senhores, bem velhos já, carregando nas costas sacos enormes de arroz ou pasto e pensei que esses jamais vão ver a Indonésia “vendida” aos turistas. Eles mal entendem o que a gente faz passando de moto por ali, no meio do vilarejo que vivem. Isso dá para sentir pela carinha que as crianças fazem quando nos vêem passar, nos olham como extraterrestres, começam a gritar para avisar os outros, abanam, sorriem, ficam de boca aberta assustadas sem expressão. Parece que vão contar aos seus netos daqui uns 50 anos: “quando eu era criança, eu vi algumas motos passando rápido com pessoas diferentes, bem brancas, com roupas estranhas que abanaram para a gente…”.

Talvez sim, talvez não. Com a inauguração do aeroporto internacional de Lombok agora em 2012, todos dizem que essa ilha vai “estourar” como aconteceu já com Bali. Dizem que Lombok é como era Bali há mais de vinte anos. Onde ficamos, na beira da praia de Kuta, provavelmente, vai se tornar um lugar para os grandes resorts de luxo. Os locais perderão seu espaço e se sentirão estranhos em sua própria ilha.

Escutamos essa frase de um garçom local que muito nos ensinou sobre sua religião muçulmana e muito contou sobre as mudanças avassaladoras dos últimos tempos. Sobre as crianças que não tem mais paciência de esperar, sobre a diminuição do respeito com os mais velhos, com a segurança, com a invasão dos turistas, sobre o lixo sem fim, sobre educação, política e sobre essa mega transformação na Indonésia.

Em Bali dizem que Lombok é perigosa, que é um lugar de alguns bandidos e que tínhamos que tomar cuidado. Não sentimos nada disso, pelo menos não por onde passamos. Bem pelo contrário, em Lombok vimos e comprovamos que o povo ali é super amigo, receptivo e que essa “fama de perigo” é espalhada em Bali para manter os turistas somente em Bali. Em Lombok eles estão sempre sorrindo, querendo ajudar de verdade sem pedir dinheiro em troca. É um povo lindo que adora fazer amizade, que conversa calmamente (achamos o inglês de alto nível também) e que trata o turista cordialmente e com muito respeito. Nunca fomos xingados por nada em Lombok.

Andamos sem capacete, não existia a polícia e os locais não eram interesseiros. Os turistas pareciam mais calmos, fizemos amigos e adoramos a experiência de viver de verdade um tempinho em outra ilha. O clima lá é bem melhor também, não chove quase, tem sempre vento e não precisa mesmo de ar condicionado como aqui em Bali. Não tem trânsito e nenhum lugar é lotado. Os bares tem um climinha de praia daqueles que hoje em dia não se encontra mais facilmente. Achamos muitas outras praias desertas, lugares secretos e uma paz enorme.

Acordamos todos dias antes das 7h, um dia acordamos as 5:30h. Dormíamos cedo, acordávamos cedo, comemos saudável, descansamos mais ainda… aproveitamos muito bem e levaremos essa experiência de Lombok para sempre, compartilhando com todos que quiserem vir a Indonésia para que não fiquem somente em Bali, pois um “outro mundo” está ali do ladinho… Só esperando para ser descoberto!

Eu até artesanato com as conchas que achei na beira da praia fiz. Olha aí que gracinha meus colares (e o cordão é de raiz de árvore):

blog comments powered by Disqus